Escritor da região é finalista do Prêmio Jabuti com obra que destaca a luta negra

Alê Santos concorre na categoria ensaio com “Rastros de Resistência”; uma das principais premiações do país exalta o trabalho do jovem cruzeirense que mora em Guaratinguetá e se redescobriu na literatura

Alê Santos, que hoje é referência na luta pelo respeito à comunidade negra no país; escritor disputa o Jabuti (Foto: Arquivo pessoal)

Thales Siqueira
Guaratinguetá

Uma das vozes do movimento negro no país, o escritor Alê Santos foi indicado para a 62ª edição do prêmio Jabuti, um dos mais significativos da literatura nacional. O publicitário, que mora em Guaratinguetá, concorre na categoria Ensaio com sua obra “Rastros de Resistência: Histórias de luta e liberdade do povo negro”, que traz relatos de lutas e resistência de personagens da história afro.

Nascido em Cruzeiro, negro e de periferia, Alê Santos quando criança não se enxergava como negro e era vítima de comentários racistas na escola. Chegou a precisar de acompanhamento psicológico, e viu o racismo destruir sua autoestima.

Foi assistindo “Jamaica abaixo de zero” que o jovem passou a se enxergar de outra forma. O filme, de 1993, retrata a história de quatro jovens jamaicanos praticantes de bobsleigh que lutaram contra todos os obstáculos para competirem nos Jogos Olímpicos de Inverno. A história é baseada na passagem real do time que representou o país da América Central e Caribe na competição, mesmo com uma realidade bem diferente dos países que disputam as medalhas das Olimpíadas de Inverno, quase sempre cobertos pela neve.

Alê percebeu por meio da produção que poderia ser como os heróis jamaicanos, negro e praticar esporte. Participou de corridas dos 12 aos 18 anos ganhando medalhas em campeonatos estaduais.

Se ausentou das atividades esportivas para cursar publicidade e propaganda em uma faculdade de Lorena. Foi nessa época que começou a sentir uma inquietação e resolveu dar voz ao movimento negro.

Aos 12 anos começou a escrever contos de fantasia e ficção científica. Apesar de participar de diversas antologias de editoras, não teve um livro publicado. Percebeu que era difícil ser negro e escritor no Brasil, abandonando a ideia de publicar uma obra sua. Quando já tinha desistido de seus sonhos, foi através das redes sociais que conseguiu ampliar o alcance de sua voz e levar vivências para um maior número de pessoas.

Em 2018, por meio das “threads”, publicações em série no twitter, contou a história de líderes negros e trouxe explicações sobre a origem do racismo, viralizando nas redes sociais e despertando a atenção das editoras.

Através do twitter se aproximou de figuras ligadas à luta pelo maior espaço para o negro na sociedade, como o rapper Emicida, que assina a orelha do seu livro. “Este livro é um mapa que nos conduz por uma trilha em que os fragmentos da história nos levam a encontrar o tesouro escondido. E esse tesouro é tudo o que nos foi usurpado pós-colonização. Obrigado, Alê, graças a Oxalá (e para o terror de quem nos roubou) este é apenas o primeiro livro. Que os orixás o acompanhem, apenas continue”, comemorou Emicida.

Já foi citado por personalidades como Marcelo D2, Leoni, Daniela Mercury e Paola Carosella, e esteve na bancada do Roda Viva, programa da TV Cultura, entrevistando Serginho Groisman.

Sua conta @savagefiction é seguida por mais de 138 mil usuários. Santos a utiliza para refletir sobre o racismo e contar histórias de personagens negros no mundo.

Hoje, com 34 anos, é professor de pós graduação na ESPM-SP, consultor de inovação e startups, afrofuturista e possui diversos projetos como o podcast “Infiltrados no Cast”, produção exclusiva do Spotify, que traz questões sobre a perspectiva negra-brasileira. É também, colunista do site “Ponte Jornalismo”, onde levanta questões sobre o tema e desmascara o mito da democracia racial.

O “cronista dos negros”, como foi denominado pela Revista Piauí, está há mais de dez anos produzindo conteúdo na internet. Já recebeu prêmios, representou o Brasil em uma antologia mundial de Ficção Científica, trabalhou e deu cursos de transmedia storytelling.

Mora em Guaratinguetá e sua vida, como de muitos em 2020, se resume a ficar no seu apartamento, em cuidados devido à pandemia do novo coronavírus. Não possui uma rotina específica. Em um dia ele está produzindo seu programa, em outro participando de uma entrevista, e noutro trabalhando no seu próximo livro. No último mês deu uma palestra online para a Universidade de Londres e está roteirizando uma série em podcast, projeto em que está na fase de escolher as vozes dos atores.

Os planos para o futuro são muitos. Está escrevendo seu próximo livro que vai ser publicado pela HarperCollins, segundo maior grupo editorial do mundo. Alê planeja viajar e participar de mais eventos pelo país em um cenário pós pandemia.

“Rastros de Resistência” – O livro, publicado em 2019 pela editora Panda Books, é composto por narrativas de personagens que existiram no nosso mundo, mas que tiveram sua história apagada ou silenciada ao longo dos anos de colonialismo e pós-colonialismo. O leitor pode acompanhar vinte relatos breves e ilustrados sobre reinos e heróis da África e da diáspora africana. “É fácil esquecer o passado cruel e devastador quando ninguém se preocupa em contá-lo”, escreveu Alê em seu livro, onde lembra que muitas das histórias de discriminação e resistência falam um pouco sobre sua própria trajetória.

“Rastros de Resistência” foi considerado um marco na historiografia da cultura africana e afro-brasileira e uma leitura indispensável, já que coloca em debate assuntos tão pertinentes para a sociedade como o racismo e o preconceito.

 

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